O SONHO DA OSTRA
ECLÊ GOMES - Setembro - v.1, n.3 (2022)

I
lua cheia
silêncio
o que te escrevo é sério.
o que vem é imprevisto.
estou arriscando descobrir terra nova.
II
por isso te escrevo
por sopro nascente do amor
um arco prestes a disparar a flecha
sei que vou atingir o alvo
no âmago do próprio instante
o amor impede a morte
liberta
até o fim
vive a si mesma
e para um pouco
sinto outras pessoas
vivo-as
quero contar certas coisas
sinto que pressinto
mas não tem palavras
é segredo
um dia
a praia estava cheia
de liberdade
e eu sem precisar
de ninguém
é difícil repartir contigo o que sinto
o mar calmo
à espreita e em suspeita
como
III
vou te dizer uma coisa
é o seguinte:
quero traços que se cruzam no ar
e formam uma desarmonia
meu ser se embebe
e se embriaga
então me movo no mistério
a criação me escapa
o coração batendo desordenadamente dentro do peito
o que estraga a felicidade é o medo.
IV
é difícil te explicar
sonhei que estava sonhando
o sonho de um sonho de um sonho de um sonho
fui dormir
e sonhei que te escrevi
e era mais verdade do que te escrevo
no sonho escrevi
tudo voltou para o nada
para a força
tudo acaba
mas continua
aquilo que vai ser depois
é agora
não vai parar
continua
o que te escrevo continua
V
estou escutando o assobio no escuro
condição humana
me revolto
tem que haver
um consolo possível
tem que haver
há palavras proibidas
minha única salvação
é a alegria
não faz sentido?
pois tem que fazer
é cruel saber que a vida é única
e que não temos garantia
se não a fé em trevas
é cruel demais
então
com uma alegria indomável
recuso-me a ficar triste
sejamos alegres
quem não tiver medo de experimentar
a alegria doida
terá o melhor
da nossa verdade
eu estou sendo
neste instante-já
alegre
porque me recuso a ser vencido
então
eu amo
como resposta
amor é alegria
mesmo o que não dá certo
mesmo o que termina
e a própria morte
tem que ser alegre
não sei como
mas tem que ser
VI
salto mortal
compreendi que há muito tempo eu creio
que a flor um dia brota depois de lançada a semente
eu creio
com espanto
fiquei imobilizado com a descoberta
depois fui me acostumando
eu sou
criação e criatura
quase nada
um ser humano
um dia brota
VII
desordenado
sem relógio
escreveu pontual:
comecei te amando
te amo com a minha esperança
profundamente
me dou
talvez em língua anterior
ao tique-taque do relógio
apresso-me então
eu
que não vou morrer
no instante
está vendo?
o instante passou
e eu não morri
entrega a sua doçura
à lua
porque o tempo nos acomete
e agora é um instante
você sente?
eu senti
diretamente
embora dentro
seu gosto
de rosas pequenas e escarlates
fica no tempo
em palavras
concreto
como instrumento num arquivo
dentro de mim
te amo
desordenado
e sem relógio
já
pura abstração de um objeto
que vai gritar
língua nenhuma
porque inventaram palavras
disse
palavras
VIII
agora vou acender um cigarro
Eclê Gomes é doutor em Nada, mestre em Soluções Imaginárias, Ator, Diretor, Dramaturgo e Poeta. Editor chefe, caotizador e colaborador na revista Terceyro Mundo.

